Eleições 2018

Brancos, nulos e abstenções: o exército dos sem-candidatos cresce feito massa de pão

José Armando BUENO (*)

Uma categoria de eleitores pode atrapalhar, e muito, as eleições de 2018. Ela é gigantesca, exércitos inteiros de eleitores de todo o país identificados como SEM-CANDIDATOS. Quanto mais a política e os políticos fogem do papel para o qual foram eleitos, mais fazem-na crescer. É como massa de pão: mais bate, mais cresce. Quem são eles? O que querem ou pensam? 

 

Quanto mais os políticos não fazem a lição de casa, mais crescem os sem-candidatos, como massa de pão.

MASSA DE PÃO  |  Os sem-candidatos não são novos nas eleições. Formam este exército os eleitores que votam em branco, anulam o voto ou não vão votar, gerando a abstenção. E crescem velozmente. O último DATAFOLHA marcou 36% (recorde histórico e só entre nulos, brancos e indecisos, fora abstenção), um número tão exuberante que seria capaz de eleger em vários estados o presidente, governador, senadores, deputados federais e estaduais. E o número não pára de crescer. Principais fatores: insatisfação, descrença, falta de opção. E muitos eleitores dessa categoria sempre votaram. Desistiram. Cansaram de ser enganados.

VERDADE DOLORIDA  |  Na eleição suplementar do Amazonas em agosto de 2017, chegaram a quase 50%. Alguns políticos argumentaram que, sendo uma eleição majoritária, era de se esperar um número como este. Mentira. A verdade dolorida é que, diante da dupla Amazonino Mendes/Eduardo Braga, não havia opção, pois não eram e não são, de fato, opositores e sim integram o mesmo grupo político que se alterna no poder tem três décadas. O eleitor sabe disso. Um dos fatores que mais incrementa os sem-candidatos é exatamente a falta de opção e, especialmente, o desinteresse pela política, e que vem da base da pirâmide social, aonde a luta pela sobrevivência é maior que qualquer outra pauta. A discussão sobre política na atualidade, está centrada nas bolhas das redes sociais e bem longe de parte significativa da população, que busca trabalho e alimento.

Esmagadora maioria dos políticos não tem alvos específicos e atiram para todos os lados, sem critério.

CANDIDATOS RECUADOS  |  Mesmo diante de um cenário de incertezas e de enorme rejeição à política e os políticos, os (pré) candidatos com mandato – claro – estão no trecho fazendo o trabalho da política tradicional. Outros, sem mandato, também estão no jogo, mas em sua maioria longe dos holofotes. Não têm espaços e recursos para chamarem a atenção para si, exceto as figurinhas carimbadas pelas mídias regionais ou nacional. Em boa medida são pessoas com alguma exposição oriunda de suas atividades profissionais ou sociais. E gostam de dizer que não são políticos, um mantra bem explorado para apontar ao eleitor certa virgindade diante dos estupros sociais e econômicos perpetrados pelos políticos tradicionais. Esmagadora maioria, em comum, atiram para todos os lados. Não têm alvos claros e não se preocupam em colocar planejamento e ciência no que fazem.

OS SEM-CANDIDATOS  |  E o grande exército dos sem-candidato aguarda 7 de outubro para sua manifestação soberana. Mesmo que formem maioria de 51%, isto não interrompe a dinâmica eleitoral. Os outros 49% vão decidir pelos que não forem votar. E, claro, isto vai percutir na vida de todos. Menor quantidade de votos significa maior disputa, afunilamento, e candidatos mais fortes, mais bem preparados ou com mais recursos, tendem a acumular mais votos. Por outro lado, sob vários aspectos e em várias regiões do país, a fragmentação de candidatos vai tornar mais grave a votação. Quanto mais candidatos e menos eleitores, pior o resultado das urnas sob a dimensão da representação democrática e da estabilidade institucional. Isso porque a fragmentação agora vem acompanhada pela polarização.

Os políticos não sabem resolver os problemas nem responder às crescentes dúvidas.

O QUÊ FAZER?  |  Reverter processos de fragmentação eleitoral com polarização é difícil e complexo, porque foram tramados na cortina do tempo e da incapacidade das elites políticas em domar-se a si e seu inescrupuloso apetite pelo poder – a qualquer preço. Desarticular esse monstro é tarefa de longo curso. Mas é possível. Falta, acima de tudo, um projeto nacional, por vezes até estadual, pensado e articulado para nos arrancar dos atrasos, e que seja mantido no longo prazo. Há caminhos, mas eles precisam ser desbravados, construídos, testados. Candidatos precisam melhorar, e muito, a sua comunicação, mas nem eles sabem responder às dúvidas e aos problemas e, sem projetos e propostas concretos e longe da mesmice de buscar recursos para educação e saúde, é quase impossível destacar-se nesse quadro desbotado.

TUDO É LOCAL  |  Mas, os alicerces do castelo do poder estão no município, e a federação é apenas um ideário que não construiu representatividade e equidade. Ao contrário. Municípios, mais que estados, são submetidos ao pires vazio dos recursos e da força de representação. Os modelos orçamentários e de representação política foram concebidos para perpetuar o interesse superior dominante. Raros os prefeitos que, de fato, podem “brigar” por recursos e a execução de projetos de interesse exclusivo da municipalidade. Em 2020, sem coligação, um novo jogo será jogado. Mas este jogo começa agora em 2018. A partir dele pontos de referência serão construídos, ainda que frágeis. Tudo vai depender de como as representações partidárias nacionais e estaduais vão preparar o solo para as eleições municipais. Mais incertezas à frente podem turbinar os sem-candidato, o que é muito ruim para todos. Inclusive para eles. Candidatos de fato com olhar de águia, estão de olho mesmo é nas municipais de 2020. Sem elas, não vão chegar vivos a 2022.

(*) José Armando BUENO é empreendedor, jornalista e editor de A Capital.

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